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segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

POÉTICAS DO DIA-DIA. O Desenho de Leonardo Da Vinci

Por Rodolfo Carvalho

Publicado originalmente em Atelier Rodolfo Carvalho.

Dentre os inúmeros artistas aos quais eu dedico minha total admiração existe um espaço em meu coração para uns poucos que realmente norteiam minha vida de artista, mais especificamente no campo do desenho. Um deles, é de um homem florentino chamado Leonardo di Ser Piero da Vinci ou, Leonardo da Vinci como foi mais conhecido pelo seu trabalho. Sem dúvida era um gênio de sua época e um dos mais impressionantes artistas de todos os tempos, sem mencionar que o mesmo era um polímata, detentor de vários ofícios incluindo pintura, escultura, botânica, arquitetura, poesia, dentre outros. Entretanto o que mais me moveu para a figura de da Vinci foi a versatilidade e qualidade sem igual de sua trabalho gráfico personificado nas inúmeras facetas e técnicas de desenho.



A diversidade do seu trabalho era facilmente dividida entre os trabalhos que se agrupavam no campo do conteúdo e no campo técnico formal. Trabalhos intensos e em grandes quantidades marcaram a vida do artista podendo ser detalhados a partir dos trabalhos de sua juventude até os magníficos projetos para grandes obras e invenções fruto da sua maturidade como artista. Em sua totalidade podemos perceber a variação de técnicas como o giz de cor, a pena, o pincel, a ponta metálica e a sanguínea que marcou grande parte da obra do autor e, serve de marco para definirmos um determinado período que da Vinci abusou da técnica em dezenas de desenhos. Foi justamente com a sanguínea que da Vinci desenvolveu um estilo próprio de desenhar ao qual denominou “traços rápidos curvos” que dão delicadeza e elegância às suas peças diferente de qualquer outro artista de sua época.



Da Vinci acrescentou, também, o giz escuro em diversos trabalhos a fim de ressaltar traços mais específicos e detalhados criando uma atmosfera única em cada projeto trabalhando com maestria na luz e sombra, uma de suas técnicas favoritas.


É importante ressaltar, que a diversidade da obra de Leonardo está diretamente ligada ao seu estilo profissional plural. E era comum que ele trabalhasse em diversos projetos ao mesmo tempo de campos diferentes, portanto a diversidade atrelada à quantidade de desenhos do autor seja tão evidente.

Outro fator que chama atenção na obra de Da Vinci enquanto desenhista era a escrita invertida que gerou tantas interpretações polêmicas quanto equivocadas, passando de teorias completamente infundadas como rituais para afastar espíritos que queriam apossar-se de sua obra até a um uso consciente de um código secreto. Pura bobagem! Leonardo era canhoto e nunca negou isso. O uso da escrita invertida era, apenas, para não danificar o trabalho pois a tinta demora para secar e a escrita da esquerda para a direita poderia levar  a causar danos irreversíveis à peça. A obra era facilmente traduzida com a ajuda de um espelho.


Abaixo podemos ver inúmeros trabalhos do autor ao longo de sua vida variando desde os desenhos anatômicos até projetos tecnológicos avançadíssimos para sua época.



Referências

ZÖLLNER, Frank. Leonardo da Vinci, A Obra Gráfica. Taschen. 2011. Lisboa. Páginas (258-259).

http://www.drawingsofleonardo.org/
http://www.leonardoda-vinci.org/
http://www.universalleonardo.org/


Rodolfo Carvalho é artista visual, ilustrador e um fã declarado de Da Vinci.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

POÉTICAS DO DIA-DIA. O corpo pela ótica do karatê.

Por Rodolfo Carvalho


Sou artista visual a menos tempo do que artista marcial, praticante por mais de vinte anos nas estradas do Karate-Do, lecionei, mas hoje me vejo como um “maverick”(sem estilo definido), apenas me dedicando ao estudo indiscriminado da arte marcial pelo aspecto estético e poético, o movimento, as nuances, elementos vivos intrincados no vai e vem dos fundamentos. Tudo para complementar meus estudos maiores sobre o corpo e suas possibilidades físicas e simbólicas no universo das artes visuais.

Praticante de Karatê executando uma das suas composições de movimentos denominada de Katá. Na foto o karateka exibe movimentos do Katá de faixa preta Gankaku (A Garça sobre a Rocha).


Todo esse caminho oposto ao das regras absolutas da luta é um proposital engenho visando uma desconstrução do gesso formado pelos antigos praticantes que desejavam perpetuar toda a simbologia de suas vidas na ilha de Okinawa e no Japão. Entretanto, o mundo se transformou. O ocidente invadiu o oriente no final do século XIX e o oriente penetrou sutilmente encarnado nas inspirações dos impressionistas. Era um mundo que se apresentava elegantemente e se miscigenava aos poucos com suas culturas e muita coisa se transformou inclusive os estudos do corpo e a ótica que se tinha do meio-ambiente. Apartir de então, a Revolução Industrial na Europa desvalorizava o indivíduo e enaltecia a máquina como agente transformador seja no trabalho explorador das fábricas ou na política do recém surgido comunismo que também mostrava que o conjunto do proletariado era uma máquina poderosa de combate ao assim chamado “monstro da burguesia” que Marx e Engels tanto combateram. Do outro lado do mundo, o Japão fechava as portas para o ocidente após a Revolução Meiji e o fim do Samurais, mas tardiamente, pois os desejos e as facilidades trazidas pela indústria seduzira o povo japonês e isso refletiria em décadas no futuro. A China também se pronunciou com um fechamento ao mundo ocidental mas acabou criando seu próprio arcabouço revolucionário e desenvolveu um modelo industrial aproveitando seu poderio de trabalho baseado no número populacional. Mas, como isso tudo tem à ver com o estudo do corpo-mídia?

A expansão territorialista europeia não sairia barata, obviamente e com as décadas avançando e muitos conflitos sangrentos surgindo a cada intervalo de anos incluindo a Primeira Grande Guerra, logo chegaria o momento em que as forças dos Aliados enfrentariam o Eixo na Segunda Guerra. Mas o que é mais interessante é um determinado recorte desse momento, em 1945 quando os soldados americanos após lançaram a Bomba Atômica no Japão e tiveram seu primeiro contato com os primeiros pelotões que não retornaram. Foram homens que tiveram seus corpos perfurados aparentemente com golpes fortes, mas sabia-se que não eram com as afiadas katanas japonesas. Surgia o primeiro sinal da existência de algo que eles não estavam familiarizados. O corpo falava através de outros corpos.

O Clube de Karatê Acrópole foi uma das mais respeitadas associações da luta projetando para o cenário nacional figuras como o Hansho Ivo Rangel, ex técnico da Seleção Brasileira de Karatê.


Os anos passaram e as primeiras academias de artes marciais foram sendo abertas no ocidente, principalmente das de Karate, supervisionadas pelo núcleo da Nihon Karate Kiyokai, grande confederaçãoo de karatekas ao redor do mundo. Foi exatamente nos anos 50 que a expansão dessa arte chegou ao ocidente através dos ensinamentos de Hansho Ginshin Funakoshi, fundador do estilo SHOTOKAN de karate. Na verdade tratava-se de uma revolução, pois a mesma arte era restrita a poucas famílias em território japonês e o mestre Funakoshi buscou transformar os estudos da arte, elitizados pelas decadentes fameilias arrasadas pela Guerra em uma metodologia pedagógica avançada que compreendia uma prática não somente de uma luta mas uma educação do corpo, mente e caráter.

Fora desenvolvido para isso uma sistema próprio de graduação de faixas por cores separando os alunos de faixas coloridas (dangai) dos praticantes graduados faixas-pretas (kodansha-kai), possibilitando assim uma melhor divisão da metodologia de ensino através da distribuição do aprendizado de fundamentos (kihon), luta (kumite) e kata. Esse último aspecto, entretanto, que é o principal objeto desse estudo reflete o mais primoroso exemplo do corpo-mídia dentre da arte marcial paralelamente utilizado por outras lutas como kung fu ou muai tai.

O kata, pode ser definido formalmente como um conjunto de golpes sequenciados coreograficamente e que representam um momento, uma história ou homenageiem algum lugar. Todos esses movimentos são cuidadosamente pensados e se complementam como uma reação em cadeia e buscam provocar o praticante a desenvolver o autocontrole ao mesmo tempo que se comunica com o observador. Uma relação viva entre emissor – mensagem – mídia – receptor que garante uma precisão no uso do corpo que serve de ferramenta de comunicação.

Mas o que o corpo comunica?

A mensagem é a história contada em forma de movimento, mas não se resume a isso. A mesma história pode ser contada por dois praticantes que executam os movimentos ao mesmo tempo mas possui individualidades que variam da pessoa, do estado emocional ou do ambiente.

Este trabalho mostrará muitos exemplos acerca dessas movimentações e trará situações pessoais de como é vivenciar esses momentos. Espero que goste!


Demonstração conhecida como Jiu Ippon. É parte do processo pedagógico e andragógico no Karatê que movimentações que simulem combates sejam regularmente aplicadas em aula.



Fluir Como Água, Pisar Como Rocha.

Dentro do ensino do Karatê existe um método de aplicação ao qual denominamos katá. Uma combinação coreográfica definida de ataques, defesas, bases e esquivas que simulam uma situação de combate, uma homenagem a algum lugar ou algum mestre, ou uma sequência didática e metodológica.

Pelo estilo SHOTOKA desenvolvido pelo Mestre Ginshin Funakoshi somam-se um total de 26 desses movimentos, sendo os cinco iniciais voltados para o desenvolvimento pedagógico para iniciantes da arte.

Por décadas o Karatê era denominado Balé da Morte, devido a seus movimentos em alguns aspectos terem uma certa semelhança com passos de dança, porém nada próximo de sê-lo. A arte, desenvolvida na ilha de Okinawa para combater o exército do Shogun sem armas (que eram proibidas) expandiu-se pelo oriente e tornou-se um dos veículos de ensino no início do século XX em escolas e universidades desenvolvendo um novo estilo de aprendizado permitindo que toda a população do japão pudesse aprender e, algumas décadas depois viria a se espalhar pelo mundo.

Entretanto, os movimentos dentro dessa arte possuem uma função mais elementar: a de comunicar. Em Merleau Ponty, nosso corpo é a obra de arte em sua linguagem poética e para isso ele expressa constantemente sentimentos, ideias, desejos e angustias sem que nós usuários do mesmo tenhamos consciência disso. No uso dos movimentos do Katá não é diferente, pois o corpo é condicionado a uma sequência fechada mas que não pode contea capacidade do ser de exercer a sua resiliência e, a partir da mesma recondicionar o vaso que o contém.

Dentro da prática exercitamos o simulacro de Baudrillard embora não embasados em sua obra mas de fácil identificação com a mesma. Repetimos constantemente nossos movimentos que é possível a criação de uma consciência coletiva temporária no ato de fazer as movimentações com duas, três ou cinco pessoas ao mesmo tempo. Baudrillard diz também que o simulacro são “naturais, naturalistas, baseados na imagem, na imitação e no fingimento, harmoniosos, otimistas e que visam a restituição ou a instituição ideal de uma natureza à imagem de Deus”. Essa assertiva do autor nos mostra exatamente como se dá um dos processos de aprendizado do Karatê e, mesmo que possa parecer retrógrado no sentido da imitação, sabe-se que praticantes de atividades que envolvam o corpo comunicante que a repetição é um processo bem sucedido de absorção do conteúdo embora, hajam variações que podem ser adaptadas quando tratamos do movimento seja na explosão, na velocidade ou na potência do golpe de acordo com as várias possibilidades que a massa corpórea possa permitir.



Sobre o Grito "Não-Grito".

É comum em artes marciais presenciarmos os lutadores emitindo gritos uns contra outros no momento do combate ou nas demonstrações de golpes. Entretanto algumas coisas necessitam de explicação quando tratamos como “grito” o que não pode ser tratado meramente como tal.

O que chamamos de ‘grito” ou KI é um processo de canalização energética que desenvolvemos com o decorrer dos anos de treino que envolve o corpo inteiro desde a produção hormonal comandada pelo cérebro, as contrações musculares de quase todos os músculos do corpo até o golpe final acompanhado de uma reverberação vocal poderosa que funciona como uma resultante do impacto energético na superfície à qual o golpe está destinado. Seria como a chama do gás queimado numa plataforma de petróleo. A energia produzida é tanta que é necessário o escoamento de parte dela pois o corpo não suportaria visto que, no caso dos homens os testículos são recolhidos à cavidade pubiana e nas mulheres, os seios contraem, pressionando toda a região. O “grito” ou KI nesse caso, tem a função de regular esse processo de tensão que o corpo sofre para não causar danos físicos devido à repetição.

O grito ou "kiai" é bem mais que uma reação física das cordas vocais. Na foto, a karateka faixa preta emite a resultante da contração de quase todos os músculos do corpo. O grito nada mais é do que a liberação da energia acumulada que pode ser canalizada em um golpe, por exemplo.



O Uso Cotidiano

Pratica Karatê afeta positivamente o processo do corpo se comunicar gerando movimentos mais precisos e maior expressividade possibilitando melhor percepção de terceiros. A ciência contemporânea não reconhece oficialmente as idas e vindas dos fluidos energéticos que o corpo possui, pois ainda há uma ligação muito forte com a religiosidade em algumas culturas, principalmente no Japão onde o xintoísmo é a segunda maior religião e, devido à suas praticas animistas todos os praticantes de artes marciais adeptos dessa crença explicam o mundo através de seus dogmas. Entretanto, estudos são feitos constantemente para entender os limites do corpo e dessa fluidez de campos energéticos que constantemente usamos para executar tarefas cotidianas que envolvam tanto a força quanto o intelecto.

Para exemplificar, existe no Karatê, um fator chamado de Zanshin ou Espírito do Guerreiro. É um condicionamento mental e corpóreo que o praticante executa com a finalidade de isolar os campos de percepção ao seu roedor, eliminando o supérfluo e concentrando-se na sua tarefa.

Usa-se isso em práticas de coaching nas grandes empresas depois de observar o comportamento dos empregados durante algumas semanas. São separados por grupos, e, nestes grupos são introduzidos exercícios semelhantes ao do Zanshin para que sejam potencializadas características variadas de acordo com as dificuldades de cada um como maior concentração, polivalência, melhor filtragem nos sentidos e desenvolvimento das inteligências baseadas nos mesmos. É um processo longo mas com resultados surpreendentes , embora não disponha de números, podemos facilmente perceber no funcionamento de empresas como Ford, Toyota dentre outras.



Dor e Sofrimento Podem Ser Superados

Em março de 2013 sofri um acidente de carro, mas não tive nada de grave em termos ortopédicos, visto que houve apenas perda de parte muscular do pé direito. O momento do acidente é sempre muito chocante pois envolve uma invasão do corpo que está sendo mutilado e do cérebro que luta para processar informações que permitam que a pessoa continue lúcida.

Consegui passar nos dois testes com láureas, embora tenha me machucado bastante no tornozelo ocasionando um internamento de 2 meses. Entretanto algo me chamou atenção. Obviamente, não poderia provar a menos que passasse por diversas sessões com terapeutas de diferentes áreas para confirmar isso, mas confiante de que durante 20 anos eu pratico artes marciais, consegui manter controle do meu corpo e da minha mente ao ponto de poder me jogar por cima de minha mulher no momento dos três capotamentos que sofremos no acidente, manter a calma e serenidade para sair do carro, ainda que me arrastando e buscar socorro. Em outro momento de minha vida, com menos preparo, poderia ter ficado desacordado no momento do impacto que foi justamente do meu lado.

A prática das artes marciais permite que mente e corpo trabalhem em sincronia perfeita expressando em linguagem não verbal todos os nossos anseios. Talvez que possa explicar isso com a mais alta certeza é Harry Pross, quando afirma que o corpo é antes da máquina e ao mesmo tempo somos máquina, imperfeita, mas o mundo em sua imperfeição, é o que nos torna mais belos.


Eu busco diariamente praticar Karatê através dos movimentos mais sutis do dia-dia para mante rum equilíbrio físico e emocional pois oito meses ainda é pouco tempo e o choque foi muito forte para mim, mas acredito que mente e corpo trabalham para sarar feridas, não as crônicas somente, mas as feridas da alma que somente nós que sentimos a dor sabemos onde ela mais se dilacera.

Rodolfo Carvalho é Artista visual e ilustrador. É graduado faixa-preta de karatê e praticante calhorda de Muay Thai.





Bibliografia

BAUDRILLARD, Jean. Simulacro e Simulação. Ed Releogio Dágua. Lisboa, 1991.
PONTY, Merleau. Fenomenologia da Percepção. Ed Martins Fontes. 2 ed. São Paulo. 1991
RANGEL, Ivo. Estudos de Karatê. EGBA. 4 ed. Salvador. 1996
ARNHEIM, Rudolf. Arte e Percepção Visual. Ed Thomson Pioneira. São Paulo. 2005 

POÉTICAS DO DIA-DIA. Uma análise estética do universo político-social do MMA.

Por Rodolfo Carvalho

MMA ou Mix Martial Arts é uma invenção dos seres humanos em fins do século XX e início do XXI. Na época do famoso PRIDE ou como tão cordialmente chamamos aqui no Brasil "Vale Tudo", as lutas eram extremamente violentas e não haviam muitas regras e basicamente a proibição de chutar o saco do adversário era para que a luta durasse mais. Sendo assim, criaram um modelo de combate que misturasse diversos elementos de várias artes marciais num "big mac" de golpes. Foi justamente nessa época que surgia o UFC, que ninguém botou fé e acabou sendo o principal evento de MMA do mundo. Parabéns ao Dana White!


Anderson Silva - Lutador de MMA. Corre o risco de se aposentar por causa de uma séria lesão em uma luta.


Bom, na verdade o MMA nunca me surpreendeu enquanto arte marcial até porque eu não o considero assim. Lembro-me quando conversei com o Sensei Haroldo Daniel, irmão do Kyoshi Dorival Rangel, (ambos discípulos do Hansho Ivo Rangel) acerca da opinião dele (Haroldo) sobre o que ele achava do MMA. Obtive uma das respostas mais sensatas de um praticante veterano de Karatê: "quem é lutador de verdade não sobe ali". Na hora foi uma resposta meio impactante, pois era O EVENTO televisivo e todo mundo gostava. Mas, com o passar do tempo percebi, graças aos treinos com meu sensei e amigo Eliovaldo Carvalho como artes marciais tem muito maior relação com o termo "arte" do que com a prática marcial puramente. Me graduei faixa preta e lecionei por um curto período apenas interrompido pelas obrigações acadêmicas que me deixaram em uma decisão "salomônica" mas inevitável na qual não me arrependo embora sinta profundas saudades do Kodansha Kai. Com meu retorno às artes marciais, por indicação do meu amigo Tuchê, também faixa preta, passei a treinar com o mestre de Muay Thay e amigo Marcos Araújo cujos ensinamento ainda pretendo aproveitar assim que me recuperar totalmente. Bom e para que isso tudo? Eu, particularmente adoro treinar e dedicar mente, corpo e espírito ao treino por uma meta pessoal que não visa o confrontamento por recompensa em campeonatos. Nunca gostei, admito mas respeito meus irmão de faixa que competem bravamente no koto ou no ringue.


O Karatê se desenvolveu na Bahia através dos ensinamentos do mestre Yuchizo Machida.


Uma coisa que eu percebi nesse 20 anos de lutas é que todos os que fizeram parte dessa centelha de minha existência nunca visaram mais do que o auto aperfeiçoamento. Não desmerecendo o mestre Marcos Araújo, exímio lutador de MMA mas com uma graduação de mestre em Muay Thai, Full Contact e Jiu Jitsu. Ainda assim, vejo a batalha diária do mesmo enquanto educador e transformador para manter suas turmas e sua vida de atleta que não é nada fácil mesmo tendo uma forte empresa que patrocine suas atividades mas que não lhe dá nenhuma fortuna.


Tony Jaa - Um dos mais destacados artistas marciais da atualidade, protagonizou o filme Ong Bak.


O MMA me preocupa pois é um sonho que muitas pessoas querem alcançar mas que poucos sabem que não é nenhum sonho ser atleta de MMA. As dificuldades que um atleta chega passar antes do estrelato assim como durante, são absurdas chegando a danificar o seu corpo para que seus empresários possam garantir que as câmeras transmitam o modelo quase espartano de beleza e perfeição. O novo modelo de homem, ou como Galvão tão mediocremente falou: "os gladiadores do terceiro milênio". Por favor, né Galvão! Respeita os gladiadores!


Gichin Funakoshi, fundador do Karatê Shotokan, desenvolveu o sistema de faixas coloridas como metodologia pedagógica inserindo a arte secular nas escolas e universidades no Japão e no exterior.
Jigoro Kano desenvolveu o Judô, uma das artes marciais mais praticadas em todo o mundo e que participa dos jogos olímpicos consagrando o Brasil com diversas medalhas.


Eu continuo não sendo seduzido pelo MMA embora ache interessante explorar a "etimologia" dos golpes em uma luta e encontrar as conexões com outras modalidades, mas nada além disso. Se você quiser saber tudo, pratique individualmente cada uma. Ginchin Funakoshi desenvolveu um projeto pedagógico seríssimo no Japão pós Segunda Guerra com o Karatê e acredito que aprender a arte sem entender esse projeto deixaria o aprendizado com lacunas enormes, assim como Jigoro Kano e seu projeto com o Judô. Vivemos em uma sociedade que preza muito chegar ao pote com muita sede. Isso quase nunca dá certo. Quase sempre o pote derrama.

Rodolfo Carvalho é Artista Visual e Ilustrador. É faixa preta de Karatê e praticante calhorda de Muay Thai.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

POÉTICAS DO DIA-DIA - Uma Cidade que Abandona Seus Monumentos, é uma Mente que Apaga suas Memórias Deliberadamente.

(…) Obras espalhadas pela cidade penam com degradação e falta de cuidadoPara Mario Cravo Jr., autor do Monumento a Clériston Andrade, incendiado no domingo passado, existe um descaso em relação às obras de arte da cidade

Clarissa Pacheco
clarissa.pacheco@redebahia.com.brO vendedor ambulante Cleudo Alves da Silva, de 40 anos, trabalha há 15 na Praça Duque de Caxias, no Comércio. Ele está acostumado à vista do monumento em homenagem à Associação Ibero-Americana de Câmaras de Comércio, mas não se recorda da última vez em que viu a obra em bom estado. “Manutenção aqui? Nunca”. As duas mãos entrelaçadas, com mapas das Américas do Sul e Central, além da Península Ibérica, estão com a pintura dourada desgastada. Parte da escultura foi pintada de verde, há frases pichadas, riscos, arranhões e até nomes de casais escritos sobre o metal.(…)
Fonte: Correio


Salvador, não ama a arte pública, fato!
Conhecida pelos seus próprios habitantes pelos lindos monumentos que compunham o cenário físico da cidade, a capital da Bahia hoje é um conglomerado de ruas sujas, muros pichados, becos e vielas redutos de consumo de crack e pelos seus monumentos degradados sejam pela memória ou pelo vandalismo.

Fonte: Correio da Bahia


Eu, enquanto artista plástico posso tecer duas óticas (ambas terríveis) sobre a degradação da memória artística da cidade. A primeira, no que tange a degradação do patrimônio público, resulta em um descaso dos órgãos responsáveis pela preservação do patrimônio artístico e cultural. você já veio ao Pelourinho? Não? Então venha. Mas não se arrependa! O tradicional cartão postal de Salvador hoje é guarnecido por apenas sete policiais (isso mesmo) que não dão conta do imenso número de furtos, roubos de carro e consumo de crack abertamente. Me refiro o Pelourinho para ilustrar a situação que o patrimônio artístico e histórico vem sofrendo.

Enquanto Eliana Kertéz expõe em Brasília, as Gordinha de Ondina vão penando pela falta de cuidado. Fonte: Correio da Bahia.


Não é incomum ver moradores de rua, se alojando perto de monumentos ou até dentro deles, na tentativa de se protegerem do frio ou da agressão de outros tornando esses espaços perfeitos para a aglomeração de comunidades de moradores de rua e, em alguns casos, de pequenos criminosos comuns. É o caso do rapaz estudante da UFBA que morreu no Jardim Campo Grande assassinado por dois supostos moradores de rua. Eu mesmo, com alguns colegas, ao sair da Escola de Belas Artes íamos às quintas para o jardim para tocar violão e beber vinho e já chegou ao ponto do policial responsável pela segurança da praça nos dizer "Ou fica dentro ou fica fora. Meia noite fecha pra todo mundo.". Não questiono o fato de fecharem a praça, isso é até aceitável para não sobrecarregar as unidades da polícia com uma vigília de um lugar que pode ser lacrado para a preservação de seu conteúdo que diga-se de passagem, custou cara sua reforma na época do governo de ACM, o que acabou desconfigurando o desenho original da praça, mas isso era marca dele, vide a praça da Inglaterra no Comércio.

Não adiantou o Siron Franco reclamar. Deixaram até o último painel ser arrancado e nada foi feito para preservar sua obra, que é nossa também. Fonte: Correio da Bahia


Não se desenvolvem políticas públicas de preservação do conjunto de monumentos espalhados pela cidade. O motivo? Cuidar de arte custa caro, e no caso de degradação das mesmas é mais fácil colocar a culpa na gestão anterior e está tudo bem. De fato, vem funcionando essa estratégia nefasta de embate político há mais de 20 anos e nada se resolve. As obras do Professor e Artista Visual Juarez Paraíso são um exemplo claro. Se você for ao CAB (Centro Administrativo), na Avenida Paralela, verá um dos seus mais lindos murais completamente desmembrado, sem contar que sua obra já foi vitimada outras vezes por intolerância religiosa. Feliz é a Professora e Artista Visual Nanci Novais que tem obra no CAB mas, devido ao abrigo em que ela se encontra acaba sendo preservada não pelo rico valor artístico mas por ser tratada como um móvel ( a pesada proteção policial no local).

Obra de Mario Cravo Jr., o Monumento em homenagem à Clériston Andrade pegou fogo no domingo (20). Suspeitam que o incêndio seja de origem criminosa. Fonte: Correio da Bahia.


Outra ótica, como disse anteriormente é a do feedback do cidadão. Essa peça fundamental para a preservação e conservação da obra não se preocupa pela perpetuação da memória e isso é fato. Vejo pessoas que urinam no monumentos, que depredam, picham, se apenas falasse mal, mas precisam agredir e sujar. O Carnaval é a prova disso, ou estou mentindo? Mesmo com tapumes e toda pseudo-proteção ao redor das obras, ainda assim elas são alvo de latas de cerveja (às vezes com líquidos diferentes dentro da lata). E o que resulta isso tudo? "Maldita cidade suja, tenho nojo daqui!". Isso mesmo, o descaso moral criado pela falta de esforço em preservar o ambiente em que se vive. Um esforço que deve ser coletivo, até porque não podemos depender do poder público para tudo como a história ensina.

Fonte: Correio da Bahia


Agora, para 2014, algumas obras serão restauradas às pressas para que Salvador não pareça tão abandonada, até porque as obras que serão alvo desses restauros relâmpago estarão no circuito da turistada que virá ver a Copa do Mundo. Enfim, voltamos ao Festival de Maquiagem Urbana da Grande Soterópolis que visa mascarar os problemas reais transformando a capital em uma cidade cinematográfica para que os visitantes não vejam como ela está, de fato. Lamentável!

Arena Fonte Nova: Milhões para se construir um "coliseu" cercado de patrimônio depredado e mal conservado.


Poderíamos fazer muito mais com os milhões da reforma da Fonte Nova na conservação do patrimônio artístico e cultural da cidade e ainda atrairíamos mais turistas que o usual sem a dor de cabeça de termos ruas interditadas para a execução dos jogos. Depois que os convidados vão embora, somos nós quem limpamos a sujeira da festa.


segunda-feira, 21 de outubro de 2013

POÉTICAS DO DIA-DIA - O Brasil saiu da "Rehab" de Vinicius.

Breve consideração à margem do ano assassino de 1973
Que ano mais sem critério
Esse de setenta e três…
Levou para o cemitério
Três Pablos de uma só vez.
Três Pablões, não três pablinhos
No tempo como no espaço
Pablos de muitos caminhos:
Neruda, Casals, Picasso.
Três Pablos que se empenharam
Contra o fascismo espanhol
Três Pablos que muito amaram
Três Pablos cheios de Sol.
Um trio de imensos Pablos
Em gênio e demonstração
Feita de engenho, trabalho
Pincel, arco e escrita à mão.
Três publicíssimos Pablos
Picasso, Casals, Neruda
Três Pablos de muita agenda
Três Pablos de muita ajuda.
Três líderes cuja morte
O mundo inteiro sentiu.
Ôh ano triste e sem sorte:
– Vá pra puta que o pariu!


Quando Vinícius de Moraes escreveu seu lamento pela morte de Neruda e dos não menos importantes "Pablos" (Casals e Picasso), sua alma ficou órfã também. Hoje, somos 100 vezes mais órfãos, pois além de não temos o ronco adocicado do Violoncelo de Casals, a pincelada agressiva e atraente de Picasso, nem a tátil carícia da poesia de Neruda, Vinícius nos deixou na ilusão de um Brasil onírico, sensual, cheiroso, poético e exótico, livre da selvageria do mercado consumidor, no qual você poderia tomar uma cerveja e ter direito ao horizonte, sem que as empreiteiras tomassem as orlas para construir os seus hotéis, residenciais que jamais os nativos apreciarão, apagando a identidade local com mais uma safra de produtos "mira my friend". Não sou amigo desses, desculpe.

Fico com suave batucar de Vinícius na mesa ouvindo o violão de Caymmi e paquerando Iemanjá do outro lado do mar.

Devolvam meu horizonte!
Vinicius de Moraes
Arte: Rodolfo Carvalho

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

POÉTICAS DO DIA-DIA - A Arte é Para Todos?

Sou artista visual e arte-educador e desde que iniciei oficialmente minha vida acadêmica há alguns anos, sempre me perguntei, o porquê da arte ser tão sacralizada ao mesmo tempo que é tão transcendental aos olhos das pessoas "comuns".

Me assusta o fato de museus aqui em Salvador serem tão deficientes de público enquanto em outras cidades com investimento sólido em cultura a realidade se diferencia consideravelmente. O que o museus de lá tem que os daqui não tem? E por quê as artes visuais são tão distantes das pessoas ao passo que a literatura, música, dança, teatro, mantiveram uma relação mais estreita com o público?

Talvez não haja resposta especifica pois muitos acusarão o cubismo com a complexidade imagética de Picasso, ou o Surrealismo de Magritte baseados nas leituras absurdas da psique humana, não sei ao certo, mas cada vez mais eu vejo o mesmo discurso "afffie, que coisa estranha!" ou "meu filho faz igual" e a obra a cada dia que passa dialoga menos com o público.

Não estou me referindo ao mercado como um todo, visto que muitos artistas contemporâneos tem obras significativas e de expressividade como a Patricia Piccinini e a sua leitura fortíssima e inquisidora do comportamento humano diante do incomum, ou o trabalho do Gil Vicente que gerou uma grande polêmica na Bienal de São Paulo de 2010 com desenhos que retratavam os grandes líderes mundiais ameaçados com armas na cabeça. A arte não é de impossível compreensão, ela é de difícil acesso.
http://www.bulkka.com/patricia-piccinini/


Autorretrato matando Ariel Sharon, 2005, carvão sobre papel, 200 x150 cm
Self portrait killing Ariel Sharon, 2005, charcoal on paper, 200 x 150 cm

O espaço do museu se tornou, aqui em Salvador, um espaço intimidador, e que desperta a desconfiança, principalmente em estudantes de escolas públicas que acreditam ser um lugar dedicado ao deleite das elites negando-lhes a presença. Na verdade parte disso é verdade. Durante anos as políticas públicas de investimento em arte visavam alimentar uma casta da sociedade com poder aquisitivo alto e chegar a esses lugares só tornava cada vez mais interessante, já que na época do governo Fernando Henrique foi reduzido o ensino das artes nas escolas. Um cenário, portanto não é complicado de se imaginar. O jovem que não teve o contato com arte na escola e não tem uma tradição familiar de gozo do conhecimento artístico vai despertar essa atração pela arte quando?

Defendo que a arte seja ela apresentada na forma de qualquer de suas milhares de facetas deve ser inserida com atenção no ensino fundamental e médio indiscriminadamente, seja no ensino privado ou público. A formação artística do indivíduo é fundamental para o desenvolvimento do olhar crítico do mundo que nos cerca e nos permite negar ou aceitar situações do dia-dia que nos são impostas constantemente.


Eu sou Rodolfo Carvalho, artista plástico, ilustrador e arte-educador.


Referências:

http://www.gilvicente.com.br/

http://www.patriciapiccinini.net/

http://file.org.br/?lang=pt